TININHA VIANA
Uma das grandes conhecedoras do setor de moda na Bahia, Tininha Viana, é consultora de moda, professora especialista em styling e coordenadora e co-autora do projeto Novos Talentos do Barra Fashion Bahia. Começou a trabalhar na área entre 1981 e 1982, após ter se formado em enfermagem. Abriu lojas, foi representante de moda masculina no Norte-Nordeste, conheceu um novo mundo e outros mercados. Entretanto, queria, na verdade, estudar moda. Foi, então, para Europa, em 1989, onde pesquisou o tema "moda" que era a sua paixão.
Mais tarde, já na Espanha, em Ibiza, atuou na parte de criação, desenvolvimento de produto e representante de moda. Em 1993, um workshop de moda a levou para a Itália. No final de 1993, Tininha voltou ao Brasil para trabalhar com produção de moda e vídeo. Da parceria com Jamil Castro num caderno de moda no Correio da Bahia veio a revelação: produção era a maneira mais prazerosa de trabalhar em Salvador. Mas, ainda assim vivia com a cabeça fora da capital baiana. Isso durou até a criação do Barra Fashion, quando Tininha passou a fazer produção de backstage e formação de platéia.
Aprendeu a trabalhar no camarim, por trás das cortinas. Daí surgiu o concurso Novos Talentos, em 1998, a partir de um projeto feito por ela também inspirado em outro trabalho de sua autoria na loja do GAPA com novos estilistas. Na primeira edição, Tininha conseguiu reunir nomes como Márcia Ganem, Soudam&Kaveski e Rodnei. Desde então, o Shopping Barra abraçou o projeto e transformou a idéia num sucesso absoluto.
Confira a entrevista:
Varal da Moda – Qual sua percepção sobre a moda feita por Di Paula, Júlio César Habib, numa época anterior a 1980?
Tininha Viana: Eu não vivi essa época profissionalmente, mas acho que eram mais costureiros. Eles eram muito mais intuitivos do que respaldados numa faculdade. A maioria era autodidata. Geralmente, começavam desenhando para as grandes lojas de tecido, como Rakam. Era outra época que ainda se fazia roupa com costureiro. Era um luxo. Eles faziam roupas por encomenda. Depois, foram surgindo lojas e acabando com esse mercado. Com as lojas de departamento, a moda prêt-à-porter foi acabando com os costureiros. Hoje em dia, o que é que eles mais fazem? Roupa de noiva e aluguel para se adaptarem ao novo mercado.
Varal da Moda - E o atual momento?
Tininha Viana: Eu acho que está melhorando. Paramos de copiar a moda fora. Aqui, você já encontra designers de verdade, que pesquisam num universo diferente de desfiles de Paris e Nova York. A gente aprendeu a ir buscar essas referências no nosso cotidiano e com outro tipo de roupa mais adaptada ao nosso clima à nossa cultura também. Apesar de que ainda existam as tendências de moda européia. Não estou dizendo que não há gente que copia. Eu estou falando que a partir de agora fica até feio, dentro de um São Paulo Fashion Week ou Fashion Rio, as pessoas copiarem roupa, já que você tem jornalistas internacionais. Eles vão a São Paulo, mas eles vão a Paris. Então, não dá mais para enganar a ninguém.
Varal da Moda - Você sente que o mercado, para as pessoas que querem trabalhar com a moda, nos diversos setores, está se abrindo?
Tininha Viana: Está, mas lento, porque não existe indústria. Se existissem indústrias têxteis aqui, seria bem mais fácil. Fortaleza tem um mercado muito maior que o nosso. Cresceu absurdamente e existem agora eventos muito importantes, como o Dragão Fashion, bancado por essas tecelagens, pela Universidade Federal. Aqui, a gente não tem muito apoio. É muito difícil pedir apoio a um comerciante baiano ou a uma empresa baiana, porque elas não entendem que isso pode ter um retorno institucional. Grande parte da confecção baiana ainda é feita por empresas familiares. Então, é difícil um estilista trabalhar numa empresa dessas. Agora, está começando a acontecer. Eu acho que o Barra Fashion ajudou a profissionalizar o mercado. O consumidor também, porque ele fica mais bem informado através da mídia. O Barra Fashion faz uma exposição de tendências mostrando o produto local da Bahia para o mundo. Não mais um produto regional, mas um produto feito para o mundo.
Varal da Moda - Quais as maiores dificuldades para se realizar um evento de moda em Salvador?
Tininha Viana: Apoio, porque aqui você não tem empresas grandes para patrocinar um evento que tem um orçamento alto e, depende dessa promoção para se concretizar de forma organizada e profissional. O evento é um conjunto de bons profissionais e custa caro. O Shopping Barra busca profissionalizar o mercado, dar oportunidade a esses novos designers para mostrar seu trabalho dando visibilidade. Os Novos Talentos é bastante disputado e é a única maneira profissional desses estilistas apresentarem suas coleções. Mas existe uma cobrança das escolas ao projeto Novos Talentos de permitir que os estudantes de moda tenham uma participação mais efetiva. Eu acho até engraçado cobrarem. Eu acredito que as faculdades é que deveriam estar cuidando de promover eventos, onde seus alunos pudessem exercer a criatividade de uma forma menos profissional. O shopping tem uma responsabilidade com os seus lojistas, que apóiam o evento. Isso porque esses lojistas vêem que o evento estimula o crescimento do mercado de moda.
Varal da Moda – Você acha que estilistas que de uma forma já se consolidaram no mercado, como Márcia Ganem, procuram se modernizar, acrescentar, mudar? Há um ritmo intenso, nesse sentido?
Tininha Viana: É interessante essa pergunta. Márcia, por exemplo, é uma pessoa especial. Eu acho que, de todos esses estilistas, Márcia realmente é uma criadora fantástica, mas rebelde, que faz uma roupa muito especial, particular e artesanal. Eu quase a classificaria como alta-costura. Não chega a ser alta-costura porque a alta-costura tem muitas exigências que, se você analisar, não pode se enquadrar. Eu chamo de moda-arte. Muitas das roupas dela são jóias de vestir. São peças para Rainha, celebridade. Ela é uma pesquisadora. Há pouco tempo, ela começou a usar diferentes materiais, entre eles o tecido, porque percebeu que se não abrisse mão de só trabalhar com o "tecido dela", estaria fora do mercado.
Luciana Galeão está segurando legal, porque está conseguindo fazer uma roupa artesanal, mas ao mesmo tempo, com uma boa modelagem, com um acabamento legal. Ela faz seu próprio design têxtil, sua estamparia. Só não tem uma grande produção. Mas ela vai ter que encontrar esse caminho, até para ganhar dinheiro. A roupa é feita por ela, mas alcançou um nicho de mercado muito bom, de pessoas que não estão ligadas a uma moda comercial, pronta para usar. Seu público está sempre procurando novos estilistas e sabe misturar aquela calça da Forum com uma blusa diferenciada. É nesse novo mercado que a gente está apostando. Essas pessoas têm dinheiro. São advogadas, dentistas, profissionais liberais que têm uma sensibilidade com a moda diferente daquela de só consumir marcas. Muitas vezes, o público "classe A" lança, e os outros somente assimilam depois. O principal caminho é descobrir uma coisa: você não pode se apegar a nada. Moda é efêmera. O estilista tem que estar pronto para isso. Tem que estar dando mais, mais, mais... Hoje, há uma ânsia do novo, tudo é muito rápido.
Varal da Moda - O que mais falta a esses estilistas?
Tininha Viana: Mais maturidade, empreendedorismo. Eles não sabem gerir as próprias carreiras. Precisam saber que estilista não é apenas aquele que desenha a roupa. É também modelar, costurar, ser um administrador e estar preparado para um mundo cão, um mundo de negócios. Isso é o principal. Ele não pode ficar sentado desenhando e achando que todo mundo vai comprar aqueles lindos desenhos. Eu acho que também falta humildade na maioria dos estilistas. As pessoas são muito imediatistas. Saem da faculdade achando que estão prontas para o mercado, enquanto têm que conhecer o mercado antes de ir em frente. Buscar se assegurar, inclusive, se é isso realmente que quer para si. Precisa saber também de marketing pessoal. Sem rede de relacionamento não há possibilidade. Academia é uma coisa, mercado é outra.
Varal da Moda - O que há de diferencial nas criações baianas?
Tininha Viana: É mais artesanal. A maioria dos designers que eu conheço tem uma intuição enorme. Por estar dentro da Bahia, um estado rico em cultura e artesanato, o designer fica confuso. Eles são artistas, artesãos. O estilista baiano mistura muito o artesanato, a cultura baiana à memória afetiva e arte. É uma relação muito próxima. Soudam e Kaveski, por exemplo, começaram com a reciclagem. O mesmo acontece com Márcia Ganem, Iuri Sarmento e Luciana Galeão. O designer da Bahia parece um diamante bruto que você vai lapidando sempre. Mas eles não perdem a essência. Digo sempre para eles buscarem inspiração no baú de memórias. Afinal, os estilistas são lançadores de tendências. Aqui, na Bahia, eles são criadores de verdade, influenciados pela música, dança, folclore próprios da Bahia.
Varal da Moda - Há possibilidade de ser criativo e viver de moda em Salvador?
Tininha Viana: Criatividade aqui não falta. Com tão poucas referências, eles surpreendem. Eles não viajam para a Europa. Eu acho que existem milhares de médicos, alguns se mantêm e outros não. Na moda, é pior ainda. Mas, quanto mais a moda vai se profissionalizando, vão surgindo novos segmentos. Vai aumentando a demanda. Hoje eu já trabalho o ano inteiro, enquanto antigamente eu trabalhava mais no final do ano. A moda e os profissionais já são mais aceitos e respeitados.
Há possibilidade também sem ser folclórico. A cultura baiana é forte realmente, mas acho que quando você vai buscar dentro do repertório regional fonte de inspiração, há diversas. Não os clichês, que estão aí na porta, enferrujados. Há muita coisa dentro da história da Bahia. A diferença entre as pessoas que fazem sucesso e não fazem é que as verdadeiramente criativas vão buscar na simplicidade. São poucos os que pensam desta forma. Criatividade sim, mas não basta ser criativo. Tem que exercitar essa criatividade todos os dias e estar sempre renovando o repertório dentro do que você sabe.
Manter todos os sentidos abertos para o que está acontecendo no mundo: leitura, comida, arquitetura, museu, jardim. Não é buscar apenas nas tendências de moda. É criar algo novo. A moda se alimenta da novidade. É a busca eterna. A moda se mata para nascer de novo. É muito efêmera. Você precisa gostar muito. É cruel.
*Foto: Paulo Souza