Butique é chique
Lojas de rua ganham espaço no varejo baiano apostando em sofisticação, exclusividade e atendimento diferenciado
por: Gina Reis
Não precisa ser um ávido observador do varejo soteropolitano para perceber que as ruas da cidade estão sendo invadidas por uma série de lojas, ou melhor, sofisticadas e contemporâneas butiques. A tendência é visível, sobretudo, nos segmentos de moda e decoração. A fuga dos grandes centros comerciais acontece por muitos fatores: necessidade de criar algo diferenciado diante da concorrência, os custos dos shoppings centers e a maior flexibilidade no negócio (funcionamento, propaganda e expansão). Tudo isso é incentivado ainda pelo surgimento de ruas com o comércio segmentado.
Mas isso não é novidade. Tradicionalmente, o hábito de ir às compras na capital baiana nasceu nas alamedas do Centro. Em meados do século XX, o Centro de Salvador era o paraíso do varejo e da agitação. Não existiam shoppings centers. As compras eram feitas em lojas espalhadas nas principais ruas da cidade. A todo o momento, mulheres e homens da sociedade chegavam nos “saudosos bondinhos” ou a pé para conferir as novidades, mas, principalmente, ver e ser visto.
A Rua Chile era a mais “badalada”, mas havia ainda a Rua da Misericórdia, entre a Praça Municipal e a Praça da Sé, conhecida pelas famosas joalherias, a Rua D’Ajuda, sem esquecer da Avenida Sete de Setembro (movimentada até hoje, mas sem o glamour dos velhos tempos). “A sapataria Clark com sapatos finos e de qualidade, a Sloper, a Chapelaria Mercuri, a Adamastor e o magazine Duas Américas eram algumas das lojas mais visitadas”, relembra a dona de casa aposentada Maria Sônia Ramos, que costumava sair da Cidade Baixa para fazer compras na região.
Com a moda dos shoppings (particularmente após a chegada do Shopping Iguatemi, em 1975) e o desenvolvimento de novos bairros em Salvador, o comércio no Centro começou a declinar. A partir daí, o “chique” era passear pelo Iguatemi e admirar as vitrines cobertas de novidades. Por muito tempo, não se falou em comércio de rua. A disputa pelos principais pontos nos grandes centros comerciais superfaturou os aluguéis e também os produtos. Esse foi um dos motivos que incentivou os comerciantes a correrem atrás de medidas alternativas. Foi assim que o tradicional costume de freqüentar lojas de rua voltou a fazer parte do cotidiano dos soteropolitanos.
Na rua e na moda
Quando resolveram investir num negócio próprio, as jovens empresárias Daniela Biscarde e Débora Vasconcelos decidiram abrir uma loja de multimarcas fora da loucura dos shoppings e dos altos custos desses centros. Em 2004, inauguraram a Maria Vestida, situada no Costa Azul. Hoje, o endereço é referência quando se fala em butique na capital baiana. No início, tiveram o desafio de atrair a “mulherada” habituada aos shoppings. Para isso, elas se valeram de um atendimento personalizado, além de capricharem nas coleções e nos preços.
“Os custos reduzidos foram revertidos para os clientes em mimos, presentes em datas comemorativas ou acontecimentos marcantes na vida de nossas clientes, como o nascimento de um filho”, conta Débora Vasconcelos. Um dos diferenciais sempre foi o pioneirismo, trazendo grandes marcas nacionais para a capital. Entretanto, de acordo com ela, a busca por um maior conforto e um atendimento especializado para as “mulheres da Maria Vestida” foram determinantes quando resolveram abrir uma loja de rua.
Circuito de luxo
O maior número das badaladas lojas de rua está nos bairros da Pituba, Itaigara, Rio Vermelho e Barra. Dois dos endereços mais completos e sofisticados de moda feminina, atualmente, em Salvador, ficam na Avenida Paulo VI, no bairro da Pituba. A Martha Paiva e o Clubedomízio reúnem em um só espaço uma grande variedade de roupas e acessórios para os mais variados estilos e ocasiões. Os homens também são bem servidos entre Ondina e Barra. Lá, ficam a Bilbao e Doom - endereços mais disputados pelos consumidores masculinos que gostam de se vestir bem.

As principais características desses locais são a elegância, o requinte, a qualidade e o glamour presentes nas peças, na ambientação e no atendimento. “Como trabalho com um universo de luxo, preciso oferecer um atendimento personalizado. Por isso, tenho que estar em um local estratégico para meu público alvo”, afirma Sabrina Furtado, sócia-proprietária da Martha Paiva, filial da loja-sede no Espírito Santo. Para isso, segundo ela, é necessário se valer de uma estrutura completa com estacionamento, segurança e uma equipe altamente capacitada à disposição desses clientes especiais.
“Com a loja de rua, meus custos são mais altos, já que tenho que investir na estrutura externa e interna”, conta a experiente empresária. De acordo com ela, ao contrário do que muitos acreditam, os investimentos não são poucos, mas os resultados positivos são visíveis. A loja possui mais de cinco mil clientes cadastrados e trabalha com grandes marcas nacionais e internacionais, entre elas Versace, Diesel e Teresa Santos.
Endereços como esse têm atraído quem busca algo novo e, sobretudo, exclusivo e peculiar. Isso, porque grande parte dessas casas trabalha com grifes de peso e com coleções limitadas. É a famosa vaidade imperando no mundo da moda. Entretanto, não há como negar que os shoppings têm muitas vantagens. Há um ano, a capital ganhou um novo centro comercial, o Salvador Shopping, que já está passando por sua primeira ampliação. Ou seja, a oferta de espaços nesses locais continua em expansão já que são, sem dúvida, pontos de aglomeração e circulação de pessoas.
Por isso, quem decide abrir mão dos shoppings para investir numa loja de rua não pode deixar de fazer uma sondagem prévia sobre o movimento, os clientes potenciais e decidir, principalmente, o perfil do seu negócio. “Fizemos uma pesquisa bem elaborada antes de abrir nossa loja Maria Vestida no Costa Azul. Isso é fundamental. Realizamos uma sondagem no bairro e percebemos que o local era perfeito por ficar ao lado de uma academia, de uma clínica de estética, de um salão e, principalmente, longe da loucura dos shoppings”, afirma Débora Vasconcelos.
Assim, antes de “bater o martelo”, iniciar as obras e selecionar os produtos, vale procurar informações sobre o local desejado, o público alvo, a circulação de pessoas, a segurança e ainda conhecer quem está à sua volta.