A culpa é de Bin Laden
por: Lorena Novas
Quem gosta de ir ao cinema deve perceber que, de tempos em tempos, os diretores e produtores parecem se apaixonar por um tipo de história. Isso já aconteceu com os musicais, os filmes de ficção científica, as produções de guerra e as aventuras. Pelo visto, agora a moda da vez são os longas baseados em histórias em quadrinhos, contos-de-fada e jogos de vídeo game.
Lançado em 2000, o primeiro episódio de X-Men, seu apelo realista e os milhões de dólares que faturou inauguraram essa era que parece não ter fim. O filme, com certeza, é um excelente exemplar do bom cinema de aventura, o que justifica o fato de ter sido tão copiado. Mas a culpa da existência dessa moda é, na verdade, de Osama Bin Laden.
Isso mesmo, o mulçumano resolveu brincar de jogar aviões em prédios e voilà! Tomem-lhe filmes e mais filmes com histórias cujo único objetivo é alimentar a nova vontade dos espectadores de escapar da realidade. É claro que o cinema sempre procurou levar as pessoas ao mundo da imaginação dos diretores, mas agora, não se buscam contar histórias de simples mortais. O que se quer são histórias que de nenhuma forma possam ser relacionadas ao mundo real. Lendas. Afinal, você realmente acredita em fadas?
Foi assim que o sentimento de pânico e de incredulidade que se espalhou pelo mundo diante das cenas do 11 de setembro contaminaram a grande indústria do cinema. Ninguém mais quer encarar a realidade. Nem os filmes sobre ela. O que fazer, então? Fugir. Mas para onde? Fácil! Lembra do filme dos mutantes? Pois é, agora é só ir atrás do lugar de onde essa história saiu.
De uma hora para a outra, os diretores se transportaram para o mundo nerd e descobriram que HQ não é a mesma coisa que Graphic Novel que, por sua vez, não tem nada a ver com os mangás. Que nem só de Stan Lee vivem os leitores vorazes: há espaço para escritores adultos como Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller e Katsuhiro Otomo. Para piorar a situação, esse mundo nerd é povoado por zilhões de super-heróis e vilões. Ah, e nele também se escondem verdadeiras bíblias nerdianas, como a trilogia O Senhor dos Anéis.
Nessa onda escapista, onde o que vale é esquecer-se dos problemas dos adultos, pensar que ainda somos crianças e não olhar para o mundo real e vil que nos cerca, vieram filmes como Homem-Aranha, Batman, Hulk, Superman, Sin City, 300, O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Nárnia, Stardust... A lista é imensa. Muitos deles caíram no esquecimento algumas semanas depois da estréia. Já outros se transformaram em ícones desse estilo e colocaram seu nome na história do cinema. Para manter os inquietos espectadores sentados firmemente em suas cadeiras, os produtores tiraram outra carta da manga: as continuações. Os filmes, agora, não são uma obra única; não, são concebidos em pares, em trios, formando arcos de história que só terão fim quando não renderem o suficiente aos cofres dos estúdios.
Por quanto tempo essa moda ainda irá durar, ninguém sabe. Osama está desaparecido. A realidade voltou a ser um lugar não tão amedrontador e as pessoas normais perceberam que o mundo nerd pode ser, até, interessante. Resta a nós, espectadores, bater palmas e dizer que acredita em fadas ou ficar em casa se lamuriando de como o cinema anda infantilizado.
Sinceramente, eu prefiro bater palmas.
*Lorena Novas é jornalista, nerd assumida e cinéfila compulsiva. Quando não está no cinema, seus principais passatempos são fuçar as novidades sobre a sétima arte na internet, assistir os trailers mais recentes e ler tudo sobre as novas produções.